1995

O dia que o Flamengo contratou um jornalista como técnico

O Campeonato Brasileiro de 1995 foi, sem dúvida, um dos piores do Flamengo, marcado ainda por um evento sem precedentes na história do futebol. Devido à crise insustentável que vivia e que ninguém queria assumir, o Rubro-negro contratou um jornalista como treinador: Washington Rodrigues.

Era um técnico renomado? Uma pessoa com experiência em salvar equipes do rebaixamento? Nada disso. Washington Rodrigues era (é) um jornalista e nunca tinha comandado um time nem jogado profissionalmente.

Nos quatro meses que o jornalista esteve no comando da equipe – antes da passagem exitosa de Joel Santana – o Flamengo esteve muito perto da glória continental. De um total de 26 jogos, a equipe liderada por "Apolinho" ganhou 11, empatou 8 e perdeu 7.

Aqui reproduzimos um artigo do jornalista Jorge Barraza no jornal colombiano El Tiempo, publicado em 26 de novembro de 1995, dias antes da final da Supercopa daquele ano, em que duelavam Flamengo e Independiente. No fim, a equipe argentina acabou vencendo (2-0 em Avellaneda e 0-1 no Rio).

DE JORNALISTA A TÉCNICO

Bom, rapaziada, esta noite, vocês têm que ganhar. Eu quero todos atacando e jogando um bom futebol. Devemos isso ao público e à grandeza do nosso clube. Não importa que jogamos de visitante. Vamos pela vitória ...

O discurso não pertence a nenhum capítulo de Ripley, tampouco a um treinador de futebol do planeta Terra. Pelo menos de nenhum que esteja em sã consciência,  pois se estivessem em seu perfeito juízo, jamais pediriam semelhante barbaridade a seus jogadores. Atacar...? Jogar bem...? Que horror ..! Que tremendo descabimento tático! Que coisa do passado, pedir aos meus garotos que saiam abertamente para ganhar... Meu Deus, isso é demais, eu preciso de ar, acho que vou desmaiar...! Na mente de um treinador, para falar assim tem que estar louco ou não ser técnico. Ou, pelo menos, é imprescindível ser solteiro. Como disse Pulpa Etchamendi, grande treinador uruguaio dos anos 1960. Na época em que o Racing, dirigido por Juan José Pizzuti, era uma máquina de atacar, um espetáculo de agressividade, perguntaram para o Pulpa por que ele não estava arriscando da mesma forma com a sua equipe. Acontece que Pizzuti é solteiro, respondeu. Eu sou casado e tenho três filhos. Se eu começo a jogar assim e perco três partidas seguidas, fico sem trabalho. Muito boa.

O autor daquela frase de abertura, de fato, não é técnico, não é louco e nem é solteiro. Washington Rodrigues, atual treinador do Flamengo, é um jornalista. Não que ele seja uma bíblia do futebol, é que simplesmente ele não foi contaminado pelo vírus da especulação, a obsessão com a marca e o anseio destrutivo. Falando de futebol, ele é virgem.

Onze dias após ter celebrado seu centenário – foi fundado em 15 de novembro de 1895 – o Clube de Regatas Flamengo, o mais popular do Brasil, está mergulhado na pior crise de sua história. Com uma dívida de 27 milhões de dólares, vários anos de frustrações e, para completar, com o Fluminense, seu rival odiado, campeão do Rio de Janeiro.

Para reverter seus problemas, o velho Mengo contratou nesta temporada Romário e Edmundo que, unidos ao jovem Sávio, formaram o ataque dos sonhos. Também não funcionou. O único que rendeu foi Sávio, inativo agora por uma lesão grave. Romário e Edmundo só deram despesa e problemas. A imprensa, irônica, disse então que o ataque dos sonhos ficou dormindo.

Kleber Leite, bom amigo nosso, ex-jornalista e um dos donos da empresa Tráffic, detentora dos direitos, entre outras coisas, da Copa América, é, há um ano, presidente do Flamengo. Típico carioca, de boa disposição, Kleber mudou nestes tempos do dia para a noite.

No auge dos reveses e derrotas, a dois dias da renúncia de Edinho como técnico da equipe, Kleber foi visitado por Washington Rodrigues, antigo colega e amigo da cadeia O Globo. Aconteceu um diálogo quase surreal.

– Quem substituirá Edinho? – perguntou Washington Rodrigues.
– Você – respondeu Kleber – quero que você dirija a equipe.

Washington, um cinquentão grisalho e corpulento, considerado um bom analista do jogo, aceitou o desafio. Ele pediu permissão para O Globo e obteve uma licença de 90 dias para se encarregar do clube mais famoso do Brasil.

Sua estreia foi no início da Supercopa, na quinta-feira 14 do mês de setembro passado. Nada menos que contra o Vélez Sarsfield, último campeão mundial, em Buenos Aires. No discurso, o técnico falou de jogar com responsabilidade, mas, especialmente, enfatizou aquela frase do começo. Flamengo, que perdia por 2 a 1 até 44 minutos do segundo tempo, venceu de forma espetacular por 3 a 2.

Depois, veio a revanche no Rio: 3 a 0 para os rubro-negros. Na etapa seguinte, foi a vez do Nacional de Montevidéu. O clube de Zico venceu por 1 a 0 no Centenario e 1 a 0 no Maracanã.

Washington sempre insistindo em atacar, em buscar a vitória. Nas semifinais, veio o sempre perigoso Cruzeiro: 1 a 0, em Belo Horizonte e 3 a 1 na Cidade Maravilhosa. Outras duas vitórias flamenguistas. Seis jogos, seis vitórias. Se vencesse as duas finais contra o Independiente, seria o campeão perfeito, com um recorde jamais alcançado. No Brasil, os técnicos de verdade estão um pouco inquietos com este jornalista. Eles o veem como um subversivo que veio para deixar o ambiente desconfortável.

Como um torcedor do Independente, campeão dos campeões, espero que meu time conquiste um novo título internacional. Como um amante do futebol, vou torcer pelo triunfo de Washington Rodrigues, um magnífico intruso que veio para desmistificar o papel de técnico, normalmente, um senhor que ganha muito dinheiro e manda nossa equipe se defender.

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