SANTOS X PEÑAROL

O jogo mais curioso da história da Libertadores fez 53 anos

Há 53 anos ocorreu o jogo mais inusitado, longo e curioso de uma Libertadores. Suspensões, incidentes, um falso campeão da América, um gol validado que não está nas estatísticas, ameaças e decepção, são algumas das coisas presentes no jogo de volta da final entre Santos e Peñarol em 1962.

Durou quase quatro horas, terminou em um empate de 3 a 3, mas o Peñarol venceu por 3 a 2 e Santos foi campeão. O que aconteceu com o terceiro gol para do Santos? Peñarol, o árbitro, e uma história de cumplicidade justificada.

“Quando terminou o jogo, para nós e para povo, éramos campeões. Tínhamos vencido em Montevidéu e empatamos 3 a 3 em casa. Todo mundo estava comemorando, mas quando eu estava voltando para o vestiário, no corredor, o lateral-direito uruguaio González (Edgardo) me disse: "Olha, não valeu, hein". Ele me deixou confuso. Eu entrei no vestiário e comentei, mas ninguém deu muita importância ao assunto, continuaram comemorando. No dia seguinte, soubemos que o árbitro terminou o jogo em 3 a 2 para o Peñarol e que teríamos que disputar um terceiro jogo. Mas foi melhor. Lá, em Buenos Aires, demos um ‘chocolate’: 3 a 0 com dois gols de Pelé e um que Coutinho chutou e desviou no Caetano antes de entrar.”
José "Pepe" Macia, Santos.

Resenha do jogo mais incrível da Libertadores

No jogo de ida, realizado cinco dias antes, o Santos havia derrotado o Peñaro por 2 a 1 no estádio Centenario, em Montevidéu, o que obrigava Spencer e companhia a ganhar no terreno de Pelé e seus amigos. Os carboneros tinham que conseguir uma façanha, pois vencer no Brasil era praticamente uma utopia.

E assim foi aquele emocionante jogo:

Primeiro tempo: Santos 2 - 1 Peñarol

Aos 14' do primeiro tempo, Spencer abriu o placar para o Peñarol, causando um momento silêncio seguido de fúria na torcida da casa, que estava descontrolada, mas Dorval acalmou os ânimos empatando o jogo três minutos depois, e Mengálvio, abriu a vantagem momentanea.

Segundo tempo: Santos 2 - 3 Peñarol e Santos 3 - 3 Peñarol

Mas a segunda etapa começou a todo vapor para os uruguaios. Aos 4', Spencer balançou a rede e, apenas 2 minutos depois, José Sasía marcou o 3 a 2 parcial, que acabou se tornando o “resultado final”.


Capa do jornal do dia seguinte: "Santos empatou: é campeão da América" 

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Até a imprensa ficou no escuro. Aqui, uma notícia do dia seguinte ao confronto que cita o Santos como campeão da América. Inacreditável(Clique na imagem para aumentar) Imagem: O Estado de São Paulo

A garrafada no árbitro

A jogada seguinte ao terceiro gol do Peñarol foi um escanteio para o Santos. Enquanto se posicionava para apitar a cobrança, o árbitro Carlos Robles levou uma garrafada no pescoço e desmaiou. O jogo foi suspenso imediatamente com a possibilidade de a vitória ser dada ao visitante, porém, no vestiário, os dirigentes do Santos obrigaram o juiz a reconsiderar sua decisão através de insultos e muita hostilidade.


O árbitro pede ajuda aos jogadores do Peñarol: “Rapazes, me ajudem, porque senão nos matam”

Quando Robles percebeu que sua vida estaria em perigo se não continuasse, voltou para o campo depois de 51 minutos de suspensão, chamou José Sasía, Gonçalves e Luis Maidana, do Peñarol, no meio-campo e confessou que a partida já estava suspensa, mas os 39 minutos restantes seriam disputados, caso contrário "todos eles seriam mortos".

Reiniciado o segundo tempo, o Santos fechou o placar com um gol válido de Pagão, o que levou jogadores e torcedores a gritarem " Santos campeão da América".

E assim como Pepe contou, foi no caminho do vestiário que ele ficou sabendo que haveria um terceiro jogo, já que aquele foi suspenso aos 51 minutos e continuou sendo disputado por uma questão de segurança, o que foi combinado entre o árbitro seus cúmplices uruguaios.

“Nesse jogo, o problema foi comigo. Nós vencemos por 3 a 2, com dois gols de Spencer e um meu, e eu joguei terra no Gilmar, goleiro do Santos, no segundo dos gols do Alberto. Quando o jogo acabou vieram em bando para cima de nós. Eu fiquei para dar cobertura para a retirada dos meus companheiros para dentro do túnel e me acertaram uma garrafa vazia, que quebrou nos meus pés. Eu peguei ela e bati no primeiro que vinha atacar, então os outros se retiraram, senão entravam no vestiário e matavam todos nós. Tito Gonçalves e eu fomos os últimos a entrar no túnel.”  José Sasía, autor do terceiro gol do Peñarol.

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José Sasía pega a garrafa com a mão enquanto discute com o adversário. Atrás aparece Luis Maidana, que ajuda Robles depois do impacto.

 


O relatório oficial de Robles à CONMEBOL:

Sr. Presidente da CSF; da minha mais elevada consideração.

Por esta, venho informar os detalhes dos incidentes ocorridos no jogo disputado ontem à noite, na cidade de Santos, entre o dono da casa, o Santos, e o Peñarol, de Montevidéu.

Passaram-se sete minutos do segundo tempo, eu havia dado um escanteio para a equipe de Santos. Ao tomar a minha posição perto da linha, uma garrafa foi atirada em mim e atingiu meu pescoço. Devido a isso fiquei semi-inconsciente e temporariamente cego. Ao recuperar a lucidez, estava no vestiário cercado por dirigentes.

Pelo mencionado acima, decidi suspender o jogo por não ter garantias para cumprir minha missão.

Cartolas brasileiros tentavam me convencer de continuar o jogo, o que me recusei categoricamente. Por causa da minha atitude, fui ameaçado pelo presidente da Federação Paulista de Futebol, Sr. João Mendonça Falcão, quem me disse que se eu não continuasse apitando o jogo, ele como Deputado, faria com que a polícia me prendesse.

Como que eu mantive a minha decisão, fui insultado. Na frente dos meus colegas, Bustamante e Massaro, ele disse “ladrão”, “covarde”, “eu posso provar que você é um sem-vergonha”.

Outras duas pessoas que tinham entrado no vestiário querendo fazer com que eu mudasse minha atitude, o Sr. Luis Alonso, treinador Santos, e o presidente do clube, Jorge Athie Coury, insultaram-me e disseram que não se responsabilizavam por minha vida fora do estádio.

Independentemente de todo o ocorrido, o Santos se consagrou campeão pela primeira vez, desta vez sem escândalos, vencendo o Peñarol por 3 a 0 no jogo de desempate disputado em Buenos Aires em 30 de agosto de 1962.

Para ver as capas dos jornais da época, clique aqui.

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