Relíquias do Japão: os tesouros preservados pelos heróis do Mundial

Por: CLUBE DO POVO

Personagens decisivos da vitória sobre o Barcelona tiram do baú histórias e objetos marcantes de 2006

O balão certeiro de Índio, o drible miúdo de Iarley em Puyol, a finalização cheia de pressa e precisão de Gabiru. Precisaria de algo mais para despertar em alguém a lembrança do título mundial do Inter em 2006? Mesmo que o resgate pela memória já fosse suficiente para muitas testemunhas e torcedores, os protagonistas daquele mágico 1 a 0 sobre o Barcelona fazem questão de guardar uma lembrança física dos dias frios em terras orientais.

Cinco peças-chave de Inter x Barcelona abriram o seu baú para contar o que guardaram de recordação. Uma saborosa incursão a um jogo que não terminou. Capaz de, mesmo cinco anos depois, ainda viver sob as fibras e texturas de camisetas, bandeiras, luvas e chuteiras. Objetos carregados de histórias, que, contadas por seus heróis, mantêm forte o brilho da façanha. Confira abaixo os recortes do Japão:

Todos os amuletos do presidente

Inquieto, falante, torcedor. Fernando Carvalho fez da aristrocrata tribuna de honra do estádio Internacional de Yokohama um pedaço do Beira-Rio e, por que não, seu santuário particular. O então presidente passou os instantes antes da decisão enrolado no vestiário com uma frondosa bandeira encarnada, recheada por mensagens de 800 torcedores que viajaram para ver o Inter no Japão. O presente lhe foi dado por um padre no hotel, horas antes da partida. Depois, tentou repetir o ritual nas tribunas, mas acabou impedido pela engessada organização. Para não se desfazer da bandeira, dobrou-a, escondeu-a na cadeira e torceu para que as boas energias tivessem se mantido intactas. De consolo, notou que cobertor dado pela Fifa contra o frio estava oportunamente tingido de vermelho.

- Se fosse azul, nem usava - dispara. - Passaria frio, mas não usaria.

Com o fim do jogo, mesmo eufórico, Carvalho ainda se lembrou de recolher o cobertor. Mesmo sem saber se poderia levar o amuleto de ocasião, aninhou-o sob o braço e guardou-o. Afinal, dera sorte. O mesmo fez com a roupa. Paletó preto, camisa branca, gravata amarelo-ouro e calça bege. Amarrotado pela festa no gramado, o conjunto hoje está enclausurado como relíquia arqueológica em sua casa. A única vez em que voltou a usar essas peças foi na final da Copa Sul-Americana, em 2008. Pé-quente, logo se vê. Alguém dúvida que Fernando Carvalho seja supersticioso? O ex-presidente esboça um sorriso e desconversa, ligeiro como se driblasse Puyol:

- Mais ou menos...

Herói “dorme” com a chuteira do gol

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Gabiru não esquece a chuteira (Foto:Joka Madruga)

Ele não esperava nem estar acomodado num avião rumo ao Japão, que dirá jogar a decisão. Mas coube a Adriano Gabiru marcar o gol do título colorado, aos 36 do segundo tempo. De vaiado no Beira-Rio a ídolo máximo em Yokohama, o controverso meia de poucas palavras eternizou a sua imagem galeria vencedora do clube. O mesmo não pode se dizer das suas lembranças daquele 17 de dezembro.

Guardou apenas o par de chuteiras. O pé direito que empurrou a bola às redes de Vitor Valdez vestia branco. Hoje, mal dá para ver a marca do fornecedor. As chuteiras envelheceram, ganharam tons escuros, mas são capazes de tirar Gabiru de órbita num olhar. Elas ficam no quarto de sua casa em Curitiba. Perto da cama, onde é quase impossível evitá-la.

- Faz cinco anos, né. É um bom tempo, mas você vê ali a chuteira, olha bem, fica lembrando. Não tem como não lembrar - revela. - De vez em quando, eu vejo o DVD do meu gol.

A má conservação das chuteiras tem uma explicação. Neste ano, jogou praticamente todo o primeiro turno do Paranaense com elas, pelo Corinthians local. Confessa que se arrepende, até porque a peça foi incapaz de trazer sorte: não marcou mais gols com as chuteiras antes abençoadas. Agora, elas só deixam o seu quarto por decreto.

- Eu ia comprar um par no início do ano, mas não deu tempo - tenta se explicar. - Mas agora eu vou guardar. Sabe como é, daqui a pouco, chuteira abre, né? Deixa ela lá, quietinha...

Garçom precavido: camisa reserva para amigos

João Pedro tinha por volta de dois anos quando o pai entortou um dos zagueiros mais badalados do mundo e se tornou o garçom do gol mais importante dos colorados. Por isso, às vezes costuma pedir para rever o lance, ângulo por ângulo. Iarley aperta o “play” do DVD com o maior prazer, sem pensar duas vezes. Zelo maior o atacante reserva para as lembranças trazidas na mala, direto do Japão.

É no plural mesmo. Iarley trouxe tudo, até o fardamento usado em treinos. Guarda o material junto com as lembranças da Libertadores e da Recopa (a tríplica coroa). A maioria delas está encaixotada, protegida da cobiça alheia. Encravado na história do Inter, hoje Iarley veste o verde do Goiás, mas seu museu particular mora na distante Fortaleza.

Parentes, amigos, conhecidos, todos querem ver, tocar, sentir as peças. Iarley até deixa, à exceção da camiseta branca que derrubou o time mais poderoso do mundo. No lugar dela, mostra uma do mesmo modelo, mas vermelha.

- Guardo tudo com muito catinho, mas a camisa é a peça mais importante - justifica, precavido.

A última chance de tocar na camiseta branca de Iarley esteve nas mãos dos atarantados espanhóis do Barcelona. E, como a história deixou gravada, eles não foram capazes.

Um goleiro nas mãos de Gentil

Clemer estava a um dia de enfrentar a pontaria imperdoável de Ronaldinho, Deco e cia. Mas o que mais preocupava o então goleiro era um dilema particular. Estava impedido pela Fifa de usar a sua luva. Rigorosa, a organização do Mundial não permitia dois patrocínios na mesma peça. Na semifinal, diante do Al Ahly, Clemer não aprovara a experiência. Contra o Barcelona, tinha que ser a sua luva. Mais do que um capricho, era uma exigência.

- É como a chuteira para o jogador de linha, não pode ser qualquer uma - explica.

Coube ao roupeiro Gentil, mais de 30 anos de clube, marcar o primeiro gol daquele decisão, mesmo sem ter entrado em campo. Atravessou a noite improvisando uma alternativa para deixar o camisa 1 colorado à vonatde em campo Com todo o cuidado, cortou o logotipo do patrocinador e costurou um símbolo do Inter, retirado de uma das peças do vestiário.

- Parecia que tinha saído da fábrica - elogia o goleiro.

Clemer gostou tanto da luva armada por Gentil que nunca mais a usou. Emoldurou-a com a camiseta, não a tira de casa por nada. Também guardou uma bola da decisão. E ainda se diverte com um DVD com todos os jogos do Mundial, mas narrados pelos japoneses.

- É totalmente diferente! Você não tem noção.

Presente volta às mãos do zagueiro

A torcida não pode invadir o gramado após o fim de uma decisão em terras japonesas. Aquela histeria vivida pelos brasileiros na Copa do México em 1970, por exemplo, é impensável na combinação entre a disciplina oriental e o formalismo da Fifa. Para Fabiano Eller, foi ótimo. Pôde conservar todo o uniforme. Da gola da camisa às travas das chuteiras.

O curioso é que a história que mais o marca é justamente a da única peça que acabou deixando para trás. Era uma camiseta térmica que usara por baixo da oficial. Não via necessidade em guardá-la e acabou dando-a a um fã na saída do Estádio Internacional, ainda envolvido pela euforia da conquista. Logo depois, rumou para uma churrascaria de brasileiros em Yokohama fardado como se ainda fosse à caça de craques de grená e azul.

- Eu dei a uma pessoa, mas nem vi ou sabia quem era - admite.

Demoraram quase três anos para que o presente dado às pressas no Japão retornasse às mãos de Eller. Sem conseguir o autógrafo no dia da vitória, o torcedor encontrou o zagueiro numa das viagens do Inter ao Rio de Janeiro. Lá, pegou o registro do ídolo que a correria do pós-jogo impedira em 2006. Era para ser apenas uma camiseta térmica. Virou tesouro para um colorado. E uma lembrança ainda fresca na mente de Eller.

Aquele jogo, definitivamente, ainda não terminou.

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